A Escola dos Sonhos


Estamos terminando uma investigação na área de saúde e educação a partir de uma escola pública na Vila das Aves, na cidade do Porto em Portugal.   Se você trabalha com educação, ou se você se preocupa com nossas crianças, ou mesmo se tem filhos ou pretende ter filhos, conheça um pouco mais sobre a experiência educacional que tem mudado a vida de centenas de crianças. Se você não mais acredita que as escolas possam se transformar em um lugar onde os nossos filhos amam estar lá, são respeitados em suas diferenças mas tratados como iguais, estudam em pequenos grupos sem a interferência direta dos professores, saiba que essa escola é possível e existe. Se você pensa que toda escola precisa de provas e exames e separar em classes as crianças “inteligentes” e as “burras”, onde as notas são publicadas e os que melhor decoraram o que os professores exigiram tiram notas melhores e recebem elogios e os que tiram notas mais baixas são humilhados até na presença dos pais que são chamados na escola, afetando drasticamente a auto imagem da criança,saiba que a escola dos sonhos existe.
Perguntamos a uma menina de apenas 12 anos, que estudava nessa escola desde os seis anos,  o que achava do sistema de ensino da escola onde estudava e nos deu a seguinte resposta:

Eu acho que é bom. Aprendemos a nos gerir. Se eu estivesse estudando em outra escola, eu não teria crescido. Não seria responsável. Não tomaria consciência da responsabilidade dos meus atos. Não teria consciência de trabalho em grupo e de ajudar uns aos outros. As pessoas tinham que saber sobre nosso método pois é interessante e eu aprendo muito com ele, mas as pessoas não sabem. Todos deviam saber. Aqui no meu país as pessoas não conhecem. Se eu for falar com um amigo de outra escola e falo da Escola da Ponte ele não sabe o que é nem como se ensina aqui.

Temos as sextas feiras uma assembléia e fazemos a reunião em um cinema que arrumamos aqui perto. Quem comanda a assembléia são eleitos por todos. A mesa da assembléia são somente alunos. São somente  os alunos que elegem a mesa. Tem a comissão de ajuda que é escolhida pela assembléia e pelos professores. A comissão ajuda  os alunos nos problemas que eles tem. Se existe algum conflito a comissão ajuda a resolver. Sempre a comissão de ajuda busca auxiliar a resolver os problemas que possam surgir. Eu que decido como vou trabalhar aqui na escola e em que hora. Eu faço um plano de trabalho quando chego de manha. Ai faço o plano do dia. Faço a partir do plano da quinzena que é uma folha que tem o que vou fazer com toda a escola e os meus objetivos pessoais em que vou trabalhar em cada área. Os objetivos relacionados com a escola definimos com o professor tutor. Na assembléia é levado assuntos que na terça feira foi coletado e os alunos disseram quais assuntos serão discutidos lá. O plano quinzenal é individual  e feito  de acordo com as necessidades de cada aluno. Cada aluno vai fazendo seus objetivos de acordo com sua necessidade. Se precisar pede ajuda ao professor. Tenho meta de naquela quinzena fazer os meus objetivos.  Amanha termina uma quinzena de objetivos. Depois de amanha eu farei outros objetivos para mais 15 dias e no final vejo se alcancei. Temos aqui objetivos  na escola e eu escolho os objetivos que quero trabalhar. A escola tem alguns objetivos traçados e eu que vou escolher quando e como que eu vou cumprir esses objetivos. Mesmo nos objetivos que eu defino que não estão relacionados com os objetivos da escola, eu sou avaliada. Buscamos sempre relacionar  esse objetivo pessoal aos objetivos da escola. Se eu coloco entre meus objetivos para os próximos 15 dias estudar o universo, começo então a estudar depois de ter mostrado para meu professor tutor e quando achar que já aprendi eu coloco no mural que EU JÁ SEI. Se eu tiver dificuldade eu coloco no mural: PRECISO DE AJUDA. Também posso colocar algo no mural: EM QUE POSSO AJUDAR, sobre o assunto que já aprendi e que posso ajudar a alguém. A avaliação pode ser um trabalho, ou ficha de avaliação, ou uma avaliação oral  pelo professor de cada are, mas sempre individual tão logo o aluno diz que já está preparado. Nós aqui não pensamos individualmente. Não é para nós mesmos e sim para TODOS. Tudo aqui é para NÓS  e não para MIM.


 


Cláudio Vital é Psicólogo, Dr. Em saúde mental, Psicanalista e escritor. Professor Associado do Instituto de Psicologia da UFU. A coluna Pensando Bem é publicada no site aos sábados.

 

 

 

 


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